DR. PAULO ROBERTO SILVEIRA

VIVO DE AJUDAR AS PESSOAS  A AMENIZAREM  OS SOFRIMENTOS  DO CORPO E DA ALMA.

Textos

VIGARISTA VELHA GUARDA
VIGARISTA VELHA GUARDA

Certo dia — em atividade intensa como médico neurocirurgião do staff, no Hospital Estadual Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, deparei, no centro cirúrgico, com um paciente baleado na coluna lombar, durante confronto entre a PM e traficantes, na Vila Aliança, uma parte de Bangu que é quase um bairro e é considerado hoje uma favela. Logo ao chegar, fui informado, pelo anestesista de plantão, de que o paciente estava fazendo o maior quiproquó e não aceitava deixar-se anestesiar sem antes conversar com o neurocirurgião. O colega notificou-me que ele não era nem um policial militar, nem um dos traficantes envolvidos no tiroteio.

— Então é um morador da favela — comentei — mais um trabalhador inocente que pagou o pato sem ter nada a ver com ele...

— Não, Paulo — disse o anestesista — não é polícia, nem bandido, mas também não chega a ser um inocente.

Fiquei sem entender aquilo, mas ele me explicou prontamente que o baleado era um famoso batedor de carteiras, um ladrão à moda antiga, verdadeiro artista que se especializara à perfeição, tanto na punga, como na habilidade única de driblar a polícia. De modo que nunca era preso. Ele não morava na Vila Aliança — residia no centro da cidade — mas havia sido criado no local, tinha muitos amigos por lá e circulava com frequência na comunidade.

— O infeliz estava de passagem, para uma confraternização, quando estourou a fuzilaria e sobrou pra ele, completou meu colega.

Fui lá no centro cirúrgico conversar com o paciente e tentar acalmá-lo. Fiquei surpreso ao topar com a figura. Não era um jovem delinquente, como eu esperava, mas um senhor, que depois eu soube estar com alguma coisa em torno dos 60 anos de idade. Isso em parte explicava as suas habilidades incomuns para os dias de hoje. Era de uma outra geração de ladrões.  Quando ele me viu entrar, começou a chorar como uma criança.

— Por favor, doutor — soluçava ele — eu sei que sou marginal, mas tenho direito à vida, como todo mundo!

— Claro que tem — procurei acalmá-lo — mas não se aflija!

Ele aumentou o chororô.

— Nunca fiz nada de mal a ninguém, doutor! Nunca usei de violência para praticar a arte! Não roubo de pobres, nem de criança ou velhinhos, não me deixe ficar pelo caminho, doutor!

Aproximei-me um pouco mais e falei-lhe o mais amigavelmente possível que o risco de vida dele não era assim tão alto, que nesse particular o pior havia passado, e o seu risco real era de natureza neurológica, mas que ele estava em boas mão. A equipe era excelente e nós o operaríamos com o melhor de nossas possibilidades.

— Mas é isso, doutor — disse, enquanto tentava enxugar as lágrimas — eu não quero virar um inútil!

Com todos os dedos da mão, apontou aflitíssimo a área genital:

— Eu tô ficando velho, mais nisso aí eu tô em forma, doutor! Ele nunca nega fogo! Não deixe que ele seja aposentado pela operação. Se for preciso, deixa a bala aí na minha espinha pra que eu morra logo e acabe com esse sofrimento!

E gritando, descontrolado:

— Por favor, doutor! Não me cape! Não me cape, doutor, não me cape!

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A operação correu muito bem e eu o acompanhei o quanto pude. Até que ele teve alta e desapareceu. Nunca mais ouvi falar dele.

Anos depois, ao chegar no meu plantão, no Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, numa segunda-feira  (a essas alturas eu era também perito legista concursado) , me passaram uma solicitação de visita domiciliar ( um exame muito raro)  de um neurologista forense,  da parte do delegado da área. O pedido insistia para que, o mais rapidamente possível, fosse emitido o exame subsidiário neurológico para complementar um auto de exame de corpo de delito efetuado pelo perito legista de Campo Grande. O local era nada mais nada menos do que a favela Vila Aliança, que continuava sua escala acelerada de violência... Eu não tinha a mínima vontade de ir lá, mas fazer o que? Na polícia, mandou tem que fazer... Inda mais ordem de delegado de policia, que é ordem para não ser discutida, mas para ser cumprida, o mais rápido possível sem meu pé me dói ou vem cá minha nega. Então lá fui eu.

Meu irmão, o lugar era tão barra pesada que foram destacados dois policiais fortemente armados para esse deslocamento, mesmo a gente indo de carro placa fria, sem identificar nada que nos ligasse à polícia, ou à justiça.  E com o endereço em mãos, fomos pela Avenida Brasil afora, tomamos no final a direção de Campo Grande, e nos dirigimos ao endereço da visita dentro da Vila Aliança. Os nervos à flor da pele, olhando para tudo que é lado, a gente ia rodando, quando, de repente, nos demos conta de que estávamos perdidos. Ali era tudo igual! Ruelas, pessoas, caminhos, vielas, e tome quebra-molas (cuidado com o carro!)... Até que chegamos a um lugar que parecia uma pracinha e uns garotos mal-encarados vieram falar conosco. Gelei... Por mais que o carro estivesse descaracterizado, perito, meu bom, é polícia, e polícia é a categoria profissional menos apreciada naquelas paragens.

— Aí, tio — disse um deles, mais insolente (tocou a pistola que só então lhe vi cravada no calção) — diz aí, vai pra onde?

Fazer o que, agora? Tentei ser evasivo:

— Sou médico, meu filho, vim fazer um exame de emergência aqui.

Ele me olhou, muito desconfiado:

— O senhor é da associação, doutor? Ou é padre?

Insisti que era médico, mas ele não parecia satisfeito, e começou a falar alto, com a mão na arma. Vi que aquilo não ia acabar bem, e fiquei muito assustado. Até que um senhor baixinho e magro se meteu na conversa:

— Rapalá, moleque, isso aí é gente boa!

E olhando para mim, com um sorrisão, perguntou:

— O senhor não tá me reconhecendo não, doutor?

Os dois moleques entreolharam-se e hesitaram um pouco.  Mas relaxaram e saíram dali, aparentemente satisfeitos. O homem aproximou-se mais e me falou baixinho:

— Não moro aqui, nem sou do movimento, doutor, mas tenho a maior moral, tenho prestigio.

Olhou em torno, como que para verificar se a área estava limpa, e voltou a falar em tom normal.

— Mas não tá me reconhecendo não?

Eu o olhava, confuso. A fisionomia não me era estranha, mas eu realmente não conseguia atinar quem fosse. Ele parecia se divertir com aquilo:

— Hospital Getúlio Vargas...uma bala na espinha...Reconheceu não?

Aquilo me bateu como um raio. Claro que reconheci! Era o vigarista velha guarda, que mais temia ficar impotente do que perder a vida.

— Você está muito bem, rapaz! Aparentemente nenhuma sequela! Está muito bem mesmo!

— Tô sim, doutor, tô ótimo, mas ele tá espetacular!

De saída, não entendi a quem ele se referia...

— Ele quem, rapaz?

E o figuraça, apontando entusiasmado a genitália:

—  Ele! É um milagre, doutor! Ele tá vivo, doutor, tá vivo!














PAULO ROBERTO SILVEIRA
Enviado por PAULO ROBERTO SILVEIRA em 12/02/2015


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